Please reload

Posts recentes

Relato de Hospital #24

22.05.2018

Por:

           

 

Era treze de maio, dia das mães, e nós, no Hospital Infantil Waldemar Monastier. Nos preparamos, eu (Antvin), Eimi e Bel para cantarmos uma canção para as mães que estivessem no hospital, sobretudo as mães com filhos internados,  cujos corações, como se é de imaginar, estavam apertados e aflitos. 

 

Estávamos interagindo com as enfermeiras, antes de fazermos o corredor com maior número de internos, quando, em corrida desabalada chega uma mãe com a filhinha desacordada nos braços, parecendo uma bonequinha de borracha. Aflita a mãe pedia socorro para a filha que não respirava. Naquele instante, como num filme, tudo ficou suspenso como que em câmera lenta e o caos de vozes que chamavam o médico e tomavam providências para salvar o bebê. Na expressão de desespero da mãe estava o símbolo máximo da maternidade, que se preciso fosse daria a própria vida pela filha.
             

Nós desmontamos. Foi como mergulhar em águas profundas e não ter como voltar a respirar. Naquele momento nossa estrutura emocional parecia tão frágil quanto a estrutura de uma bolha de sabão. 
               

Pensei  no quão fatídico poderia ser a morte de uma criança em pleno dia das mães e o coração apertou mais ainda.
               

Chegamos no fim do corredor e entramos em um quarto. Logo ficou óbvio que a mãe desesperada tinha saído exatamente daquele quarto, e a outra mãe que estava lá ainda mantinha a angústia de ver sua companheira de quarto sair correndo em aflição. Ficamos nos esforçando para atuar, com um grande sentimento de tensão e desconforto. Se acontecesse o pior, a notícia se espalharia pelo hospital como um terremoto de grande pontuação na escala  Richter.

 

Interlúdio
                 

Ao trabalharmos como palhaços em hospital temos uma noção de que tudo o que pode acontecer neste ambiente irá acontecer independente da nossa presença lá. Não temos controle sobre estes fatos, e o nosso estado de palhaço ajuda a ampliar os sentimentos, o que deve explicar o possível exagero das minha metáforas.

 

Epílogo
                   

Foi quando a mãe voltou com sua filhinha sã e salva! Nós emergimos e respiramos avidamente e com grande alívio. Foi absolutamente sincera e provavelmente exagerada a forma como explodiu em nós a alegria de vermos o alívio daquela mãe. Mais uma vez, cresceu aos nossos olhos a maternidade, materializada por tantos sentimentos vindos daquela mãe.
                   

A menininha sorria e pareceu gostar bastante da nossa presença, até fez um gesto de pedir colo para a Eimi! Cantamos nossa singela canção com uma disposição redobrada, e o tempo pareceu fluir novamente. Creio que a mesma sensação de angústia que varreu o corredor do hospital, agora tinha virado um grande alívio, que, misturado com o mais puro amor de todas aquelas mamães, tomou forma e cresceu contaminando todo o hospital, como se fosse algo palpável,  talvez ao som da nossa musiquinha, cantada com vozes embargadas e semitonadas mas com muito amor.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Siga
Procurar por tags