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Relato de Hospital #23

15.05.2018

 

 

Em um dos quartos, o Seu João*, nosso colega já conhecido. Sobrancelha branca e grossa, olhos verdes bem abertos e um mau humor não característico que estranho no início. A enfermeira sorri e pede festa ao nos ver passar, mas Seu João, deitado de lado, espia por cima dos ombros e não ri, não nos convida para o habitual café, nem ao menos sorri. Estranho. 

 

- Seu João! Que moda a gente vai cantar hoje pra animar esse quarto?

- NENHUMA! - Responde o senhor agora sisudo.

- Eita, Seu João, mas então vamos dançar?

- NÃO QUERO! HOJE NÃO QUERO NADA!

 

Nos olhamos e olhamos o Seu João. Todo mundo tem seus dias difíceis, sobretudo os que permanecem muito tempo nos leitos de hospital. Trocamos rapidamente de jogo, mas hoje Seu João não quer conversa. 

 

Agora é seu José* que encontramos no caminho. Seu José abre portas sem parar. Almoxarifado, lavanderia, quarto 302, fisioterapia… Nossos olhares se cruzam e ele pergunta se eu vi a Laura*, afirmando em seguida que ela viria. Não vi a Laura, mas acreditei mesmo que ela viria, que seria sua filha, sua neta, sua visita naquele sábado de manhã. A Laura está dando aula, eu descubro através de Seu José. Sei também que ela leciona muito bem e que ele aprendeu muitas coisas com ela, inclusive de não esquecê-la em seu atual estado de demência. Fico realmente triste ao perceber que Laura não vem, que Laura é passado, assim como a festa que ele pensa estar quase começando. Ele nos conta da carne que está assando lá fora, do cheiro gostoso que já pode sentir, e claro, da Laura, que está chegando. 

 

Seu José quase não consegue ficar de pé sozinho, cambaleia, se apoia na parede e tem um brilho no olhar quando fala de Laura. Para animar a festa que ele pensa existir (e que agora existe) começamos uma cantata no corredor. Não demora para que Seu João, aquele que não queria saber de nada, apareça com traje de festa (bermuda azul, camiseta amarela, óculos com lentes fundas e um sorriso que eu já sentia falta). 

 

A festa começa a ficar animada quando Seu João puxa o baile, cantando e dançando acompanhado de sua bengala. Seu José, que antes não conseguia ficar de pé, agora ensaia passinhos e embala-se de olhos fechados cantando tão fora do ritmo quanto Seu João. A sinfonia dos dois errantes compõe praticamente uma releitura de “Mocinhas da Cidade”. Os mesmos erros na letra, os mesmos erros no ritmo… De tanto erro em comum formou-se ali a coisa mais linda que já presenciei em um corredor de hospital: a verdadeira conexão, o jogo, a brincadeira leva a sério… ali acontecia a vida, diante dos meus olhos.

 

Não demora para que enfermeiras e equipe médica, familiares e pacientes apareçam no corredor para espiar tamanha euforia. As pessoas não se contém e gritam: Olha o Seu José, olha o Seu José!


Parecem não acreditar naquele homem dançando. Pausa! Alguma coisa acontece… Silêncio… Abre-se um corredor no corredor. 


Ela vem vindo com passos mansos, braços cruzados e cabeça baixa. Ela não olha ninguém e resmunga com ela mesma. É Dona Rita*, agora posso observar pelo olhar sério e de poucos amigos. Pausa. Silêncio! 

 

- LAURA! VOCÊ VEIO! - Exclama seu José e meu corpo quase derrete em frente ao 302.

 

Seu José apoia os braços nos ombros de Rita que esbraveja e continua a resmungar. - Vem, Laura, que eu vou te ajudar a se arrumar.

 

Eles entram no 302 e agora Laura, quero dizer, Rita, talvez se reconheça em alguém, ou se permita ser outra pessoa.

 

Silêncio. Nos olhamos e todos sabemos que não há mais nada que fazer ali. Existe uma grande festa, a carne já está assando, mas dessa vez estamos de fora. Seguimos em silêncio por mais um pouco enquanto nossos corpos se recuperam. 

 

Agora quem aparece é Seu Agenor*, mas isso é outra história… 

 

* Os nomes reais foram trocados para preservar a identidade dos pacientes

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