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Relato de hospital #21

21.03.2018

Por:

Lá vem a noiva...

 

Eu havia ficado pra trás e quando vi, Frutuoso, Lupita e Nilovsky já haviam adentrado um quarto. Avaliei que não havia porquê entrar, era eu quem tinha perdido o ônibus no ponto e não havia porquê querer entrar e sentar na janelinha. Neste segundo respirei e olhei o ambiente: um corredor comprido, que vai lá longe, até a porta da UTI.
De repente, como que em uma dança ritmada, pessoas começaram a sair de dentro dos quartos, e me senti dentro de um clipe do Coldplay, aguardando que alguém esbarrasse no meu corpão. Mas, ao fundo do corredor, uma paciente me chamou atenção. Ela estava com sua roupa azul de paciente, parada bem ao centro do corredor e abraçava, dentro de um saco plástico, seus pertences pessoais. Ela tinha um cabelo comprido e vermelhão, uma trança de lado e uma franja bem linda. Ela, parada, segurava o saco de seus pertences pessoais como se fosse um buquê de flor. 

 


Em meus olhos de Mina, aquele momento se suspendeu. Aquela pessoa se transformou numa noiva, linda, aguardando a marcha nupcial para entrar. Respirei e a visita continuou. Conversei com quem estava mais perto, meus parceiros voltaram e seguimos. Quando chegamos ao final do corredor, Frutuoso e eu encontramos a noiva, agora sentada numa cadeira, aguardando. Foi aí que descobri que o que ela levava como buquê era um shampoo, um condicionador, uma escova e um sabonete. Não pude deixar de contar à ela que a vi como noiva. Ela disse que havia ganhado o dia com aquelas palavras e disse que também havia ganhado o dia vendo aquela noiva. Nos vimos em um problema: faltava um noivo! Frutuoso e eu, saímos realizando um teste detector de “tranqueiras”, verificando quão tranqueiras seriam os noivos daquela região hospitalar. Um, era tranqueira só pelo sorriso. Outro se saiu muito bem no teste (até ensinava o filho a lavar louça), exceto pelo fato de que era casado. Foi então que chegamos a uma grande conclusão: o melhor casamento era aquele em que casamos com nós mesmas(os) nos amando. Frutuoso quase chorou de emoção, dizendo que aquilo sim era poesia. 


– Sabem que hoje sai a minha alta? Eu até já combinei de sequestrar minha cabeleireira pra dar uma melhorada nesse visual. – comentou a noiva. 

 

[entra trilha sonora de suspense]

 

– Se-sequestro? Alguém falou em sequestro? – gaguejou Frutuoso.

 

– Ela tá falando que vai sequestrar a cabeleireira? Pra quê isso? – emendou Frutuoso, abismado.


– Vamos vazar, mano! Senão vai sobrar pra gente! – disse eu. 

 

E ao invés da Noiva em fuga, partiram dessa vez foram os Palhaços em fuga, fugindo da noiva-sequestradora. Isso daria um filme...

 

[Sobem os créditos, ao som da marcha nupcial ou algo como 007]

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