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RELATO DE HOSPITAL #20

18.01.2018

 

Ela tão pequena e tão séria, tão quieta, talvez tímida, tive que aprender a interpretar aqueles seus olhinhos. Foi assim, numa tarde de domingo no Hospital Infantil Waldemar Monastier, quando Antvin, Tina e eu adentramos seu  quarto. Sua mãe estava a arrumar seus cabelos e então eu disse:

 

- Pessoal aqui deve ser o salão de beleza!

 

Nem ela  e nem sua mãe sorriram. O olhar de ambas angustiado, parecia traduzir os dias ou horas passados ali. Elas talvez não entendiam muito nosso idioma, tinham longos cabelos negros e traços indígenas, eram singularmente lindas.

Em outro canto do quarto uma bebê, que havia dançado com a gente no corredor um bom rock´n roll, estava com sua mãe toda alegre e risonha. Demonstrava nos reconhecer e tinha vontade de brincar, em contraponto da menina dos olhos tristes.

Havia muito barulho no lado de fora, um barulho que me incomodou, parecia um gerador de luz ou mais provável um aspirador de pó gigante. Então fui até a janela e pedi gentilmente:

 

- Hey, pare já com esse barulho. Está atrapalhando as meninas aqui, ok? 

 

Bom, pra surpresa de todos (e minha) não é que o barulho parou? Sim! No mesmo instante e um silêncio ecoou por todo o quarto, todos me olharam e eu respirei aliviada como se soubesse que isso iria acontecer mesmo. Aliás eu tenho muitas habilidades que vão além de minha tagarelice desenfreada.

Ficamos ali uns poucos minutos e saímos, pois nossa missão de parar o "aspirador gigante" e barulhento tinha sido um sucesso, ele foi muito obediente. Tina e Antvin entraram no próximo quarto enquanto eu notei que estava sendo seguida. Sim, era ela, a menina dos olhinhos tristes. Voltei e me aproximei, tentei um diálogo e surpreendentemente ela também, nos braços havia uma boneca que quando apertava reproduzia frases e foi assim que nos comunicamos por um delicioso tempo. Ela dizia:

 

- Quero brincar! - e eu respondia:

 

- Oba eu também!  

 

Ela dizia:

 

- Estou tão feliz! - e eu me enchia de alegria por estar vivendo aquele momento e assim nós conversamos. A menina de aproximadamente 4 anos me olhava profundamente após cada frase e apertava incansavelmente a sua boneca pra ver minha reação. Foi muito linda nossa conexão, a boneca parecia traduzir o que a garotinha queria me dizer, e nos olhávamos com uma enorme vontade de ficar ali conversando por horas. A mãe a segurava em seus braços e pacientemente esperava, algumas vezes sorria e parecia compreender o que havia ali.

Estava na hora de ir, meus colegas saíram do quarto e se aproximaram dela que imediatamente tentou se comunicar com eles do mesmo jeito. Brincaram por um instante e nos despedimos, mas ela continuou nos seguindo e sem que percebêssemos, percorreu todos os corredores atrás de nós. Então, quando nos distraímos e começamos a brincar em frente a um espelho perto da recepção, lá estava ela, me olhando novamente, aqueles olhinhos agora mais alegres do que nunca me fitaram e com as mãozinhas ela me deu o tchau e o sorriso mais lindo que eu recebera nesses anos de visita. Sim a menina séria não apenas sorriu mas acenou e seu corpo demonstrava a alegria em estar ali com a gente e nos seguir foi uma enorme demonstração de afeto.

Dentre tantas frases e tantas palavras ditas apenas com o olhar, "adorei brincar com você", essa foi a frase que mais me tocou, foi dita por ela através da sua boneca, naquele domingo, no corredor.

Enfim, também adorei brincar contigo menina linda. Terminaria com:

 

- Me dá um abraço?

 

Abraços apertados da Trupika, à você e sua tradutora especial.

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