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Relato de hospital #18

29.10.2017

 

Nossos passos avançaram os corredores como sempre. Como sempre senti o coração disparar, afinal os corredores com baixa luminosidade guardam tantas surpresas que causam ansiedade. Veio ao nosso encontro uma das enfermeiras que já nos conhece e sempre nos recebe tão bem, nos olhou nos olhos, notei que os teus estavam rasos d'água, ela foi logo dizendo:

 

- Meninos, me ajudem, pois ela não quer comer, não sei o que faço. Já não come há um bom tempo, trouxe sorvete, suco, gelatina e mesmo assim ela não quer. 

 

Foi quando olhei para o meu parceiro, palhaço Caculé, e coloquei a mão na barriga sinalizando que aquela enfermeira tinha me despertado uma imensa fome, fome essa que me fez voar no copo plástico ao lado do bebedouro no corredor e comecei a mastigar um deles, mas não tinha o mesmo sabor daquele banquete denunciado a nós. 

 

- Mas que desaforo Caculé, se ela não quer nós queremos.

 

Entramos no quarto sem pedir, com o copo dentro da boca e, falando de boca cheia, supliquei a menina por comida, pois realmente aquilo tudo me deu fome. Ela me fitou com os olhos arregalados e observantes, ao lado seus familiares rindo daquele palhaço maluco com copos plásticos na boca, mastigando e gralhando por comida. Nesse momento realmente o copo me deu fome. 

Recebi um cutucão do Caculé que dedurou a enfermeira que havia saído e deixado aquele banquete do qual falará em cima da pequeno criado mudo no quarto e bem atrás de nós. 

 

- Não acredito Caculé, eu comendo plásticos e esse banquete bem abaixo de nosso nariz, não posso acreditar. 

 

- Não Nino, esse você não pode comer pois esse é da Mel e ela vai brigar se você comer. 

 

- Vai brigar nada Caculé, eu tô com fome. 

 

- Não Nino - dizia firmemente o Caculé, e se colocava como uma enorme fortaleza em defesa daquele banquete real. 

 

- Não! É meu, tudo meu! 

 

Assim gritava e me jogava contra aquela fortaleza, tentando transpor tal barreira em busca de deliciar-me com aquele banquete. Por vezes senti meus pés flutuarem com a intensidade da minha busca, que encontrava sempre aqueles braços e ombros gigantes do Caculé em defesa dos interesses da princesa. Um grito nos interrompeu e acompanhado de um choro soluçante veio ao meu coração feito flecha. 

Fui atingido!

Aquela princesa esticou seus braços e disse não! Afinal aquele banquete era dela e embora estivesse sendo muito bem protegido pela fortaleza chamado Caculé, aquele banquete ainda era dela e ela se pôs ao posto de defesa de seu tesouro. 

Sua mãe alcançou um copo e algo de comer. A menina levou até seus lábios e desceu goela abaixo o que me parecia um delicioso leite com chocolate que se não bastasse ainda acompanhada de uma bisnaga cheirosa. 

Entre goles um soluço, entre mordidas uma lágrima. 

Que forte essa menina...

 

- Caculé, olha! Ainda tem sorvete e gelatina. 

 

- Não Nino! - Indagou Caculé. 

 

Ela rosnou. 

Fui posto pra fora mas aqueles olhos escondidos atrás de um copo plástico cheio de leite me tomou. Antes que meu suspiro se acabasse, me perdi nos braços do Caculé e pus pra fora também minhas lágrimas, lágrimas firmes de alguém que precisava estar inteiro para entrar no próximo quarto, mas que por dentro já havia ficado imerso. 

Mais uma vez pude sentir o impacto real do que fazemos. Comuniquei a enfermeira sobre o presente que aquela garotinha havia nos dado, ela agradeceu e sorriu. Seguimos, eu e meu fiel escudeiro Caculé, a quem dedico esse texto e gratidão por ter sido fundamental na compra daquele jogo, pela escuta e generosidade e por me acolher em seu abraço. 

 

- Caculé, será que sobrou algo pra nós lá ? 

- Acho que não Nino.

 

E mais uma porta se abriu.

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