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Rugas de esperança

03.09.2017

No início do nosso trabalho, o Nariz Solidário atuava em três frentes: asilos, orfanatos e hospitais. Depois de muitas reflexões sobre nossas agendas, demandas e objetivos, decidimos atuar focados na linguagem do palhaço hospitalar, pois esse ambiente já nos exigia muito estudo, visto que esse trabalho vai muito além de colocar roupas coloridas e um nariz vermelho. A partir daí, começamos a estudar cada canto do hospital e adentramos em seus mais delicados lugares, percebendo quão complexo e mágico é esse ambiente, e quão importante é a busca por mais conhecimento e aperfeiçoamento

 para desenvolver o palhaço hospitalar.  


Após novas reflexões, experiências, aprendizados, estudo e questionamentos decidimos voltar, e voltamos, desta vez não para asilos mas para um hospital de especialidades com os idosos, e temos tantas coisas para contar. Mas o que realmente nos fez voltar? Por que havíamos desistido?

 

Tínhamos nos orfanatos uma abordagem direta com o público infantil, tínhamos o asilo, que sempre foi um desafio para nós, afinal: o que trazer de esperança e como trazer? Como dialogar com um público de uma época, que inclusive eu não havia estado, e se pouco estive, muito já me falhava a memória.

 

De fato, essas coisas sempre caminharam comigo em minhas reflexões. Depois de um ano, além de um hospital referência em traumas o qual atuávamos, tivemos a oportunidade de adentrar em um hospital infantil, com corredores desenhados e foco lúdico à criança. E, para oferecer um trabalho adequado às pessoas que estavam naquele ambiente, investimos mais estudos, cursos e muitos jogos para desenvolver a linguagem do nosso palhaço para melhor atender ao nosso público infantil, com aqueles olhares pequeninos e a cada profissional daquele hospital.

 

E como aprendemos, como evoluímos e sentimos essas evoluções, descobrimos tantos adultos em olhares de crianças, e outras tantas crianças em olhos adultos que já não saberia contar. 

 

Mas ainda havia algo que me incomodava, lembrar daquela olhada no espelho após uma das visitas no antigo asilo, aquela visita tal qual foi uma das responsáveis pela minha e pela nossa desistência. Por não saber como lidar, por não saber como se comunicar, encantar, conectar e aprender com aquelas rugas que um dia nos íamos de ter, aquele olhar que me fez lembrar que eu sempre fui um péssimo ouvinte, e que desistir do desafio ainda que temporariamente, me fazia aceitar uma derrota que me encontraria alguns anos mais tarde.

 

O tempo passou, mergulhamos, entramos em projetos, debatemos muitas coisas, sorrimos, nos emocionamos, perdemos e ganhamos e assim fomos seguindo. Mas, o tempo novamente me fazia lembrar de minhas desistências me fazendo novas perguntas.

 

Tínhamos agora, um hospital com linguagens mistas e outro 100% infantil. Organizamos um workshop com o canadense e nosso amigo Olivier-Hugues Terreault  para trazer suporte no trabalho com idosos e vasculhando algumas referencias de sua pesquisa meu incomodo foi ainda maior, lembrei de uma visita à um asilo onde fomos entregar uma doação e descobrimos que este havia perdido seus recursos de anos pois os patrocinadores tinham decidido que o foco agora era infantil.

 

Fiquei pensando em o quanto de participação minha existia naquele cenário, pois eu também havia desistido do idoso e acabei me dando conta de que estava na verdade desistindo de mim mesmo. O cerco foi se fechando cada vez mais até me deparar com minha linda avó, feliz e com cabelos brancos feito neve, vendo seu neto novamente e seu bisneto pela primeira vez, repetindo mais de 10 vezes o mesmo comprimento, o mesmo olá, as mesmas histórias, se esquecendo de momentos tão preciosos entre nós os quais jamais imaginei que ela esqueceria...foi um choque, um enorme e belo tapa na cara!


É, caiu a ficha! Se 65 ou mais é a melhor idade da vida então eu estou no meio caminho dela e isso me fez pensar! Pensar no silêncio, pensar em ações, refletir sobre qual seria a próxima porta de entrada em que eu me aliviaria de mim mesmo e retomaria um dos meus mais valiosos presentes dado pelo universo, o trabalhar com o idoso. Nesse mês de agosto, tivemos uma grande surpresa, um presente do qual passei longe por muito tempo por receio de não dar conta e desistir novamente. Mas, dessa vez foi diferente, dessa, vez amadurecemos, aprendemos, nos envolvemos e encontramos a nós mesmos nos mesmos desejos, nos mesmos medos, nos mesmos sonhos, nos mesmos tropeços, no caminhar lento e nas rugas aparentes.

 

Em 11 de agosto de 2017 pela manhã adentramos naqueles corredores, eu, o Sr Roooooosevelt treinando os exercícios da fonoaudióloga; Senhorita Mina, pois com ela ninguém tira; e Senhorita Nanique, uma mistura de banana nanica com nanica. Ali, me olhei no espelho novamente e minhas rugas sorriram pra mim, e assim pelos corredores galanteantes do Hospital do Idoso Zilda Arns, cantamos, dançamos, casei algumas vezes, tropecei de verdade porque chega uma hora que a idade-vai e vai-dade vem e faz a gente tropeçar mesmo. Para o trio de visita foi um dia mágico, singular, de muita conexão, e quê conexão. Para o hospital, ainda ouvem-se ecos e ruídos, uma sensação de "volta logo", uma esperança de "nos vemos em breve", um dia antes do próximo domingo.

...Para mim um início de um fim que não terá mais fim. 

 

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